A zona Sul de Porto Alegre é vista por muitos moradores de outras regiões da cidade como um espaço à parte, distante e residencial. Do ponto de vista cultural, essa também é a imagem – ou a realidade – para algumas pessoas que vivem nesses bairros, que buscam a instalação de um espaço com opções locais. “Grande parte da população de Porto Alegre mora aqui, inclusive muitos artistas, mas se quisermos alguma atividade, temos que ir para o Centro. Só no (bairro) Tristeza são 30 mil moradores; na região são 200 mil. Não é pouca gente”, diz a diretora do Centro Comunitário de Desenvolvimento (CCD) dos bairros Tristeza, Pedra Redonda, Vila Assunção e Vila Conceição, Angela Pellin.
Para mudar essa situação, a comunidade não pede a construção de um espaço público, apenas a liberação por parte do Estado de um grande imóvel que está sem uso há anos: o antigo Fórum da Tristeza, na rua Landel de Moura. Desde 2004, o CCD tenta transformar os quatro blocos, construídos em um terreno de 5 mil metros quadrados, segundo informações do Centro, em um local ao estilo da Casa de Cultura Mario Quintana.
Quem chega ao terreno sem conhecer sua história tem a impressão de que ele abrigou há muito tempo um colégio ou um seminário e foi desgastado pelo tempo. Mas a realidade é bem menos romântica. O local foi construído nos anos 1970 com material de demolição – o que explica seu estilo – para abrigar uma empresa de artesanato, que funcionou ali até 1988. De 1988 a 2007, foi espaço da Justiça.
Sabendo da construção de um novo prédio para o Fórum, e prevendo que o esvaziamento atrairia frequentadores indesejados, a comunidade deu início em 2004 às negociações com o Estado para a transformação em espaço cultural. “A situação ficou bem complicada. Várias pessoas vieram para cá usar drogas, virou um ponto de crack. A violência aumentou, com muitos assaltos. Por um tempo, houve vigilância, mas depois nada. Por isso, decidimos fazer a vigilância como podemos”, diz Angela. “Temos o cachorro e sempre fica alguém por aqui. Além disso, fazemos atividades do CCD e de outras entidades, para manter o espaço vivo, e consertos dentro das nossas possibilidades financeiras”, explica. Em se tratando de dinheiro, Angela diz que os moradores nem esperam uma solução governamental. “O caminho é uma parceria público-privada. Do Estado, queremos a liberação, uma negociação mais rápida”, afirma.
Alta demanda
O secretário de Estado da Cultura, Luiz Antonio de Assis Brasil, diz que a pasta tem interesse na transformação do antigo fórum em um espaço cultural, mas destaca que a propriedade é partilhada com a Secretaria Estadual da Segurança Pública. No momento, no entanto, o maior empecilho para ele é a ausência de apenas uma entidade da comunidade para negociar. “Tratamos da situação há cerca de dois meses e pedimos aos moradores que formem um instituto para tratar da questão. O CCD é uma parte e o projeto tem que ser negociado com o todo. Na reunião, havia muitas entidades e seus pleitos”, diz.
Para o secretário, a ideia de um centro cultural é vaga e somente com a união de todos os moradores em uma entidade será possível fazer um planejamento de recuperação física e do tipo de espaço adequado à região. “É preciso discutir tecnicamente. Aguardamos a formalização desta entidade junto à secretaria para marcar uma reunião”, afirma. Assis Brasil acredita que a zona Sul realmente precisa de mais destinações culturais, mas como a secretaria é estadual, há demandas de todo o Rio Grande do Sul. Para o orçamento deste ano, alerta que não há previsão, o que não impede o diálogo já que as ideias parecem convergir. “Uma parceria público-privada seria possível”, afirma.
fonte: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=65067